A Bíblia nos Ensina a Viver (V)



por Johnny Bernardo

Provavelmente uma das coisas mais difícies na vida é a de “reconhecermos nossos erros”. Algumas pessoas de fato conseguem, mas a grande maioria não. A tendência quase que geral é a de atribuir a outros erros cometidos, a de transferir responsabilidades. Neste quinto artigo da série A Bíblia nos Ensina a Viver iremos discorrer sobre esta problemática social, que atinge a todos nós de alguma forma. Ninguém esta imune ao erro, mas é preciso honestidade e, acima de tudo, maturidade para reconhecermos nossos erros. Foi justamente neste quesito que Adão e Eva erraram. Ambos transferiram suas responsabilidades, suas culpas pelo pecado cometido. Eva, por atribuir à serpente que a enganou; Adão, por causa da “mulher que Deus lhe deste”. Assim como Adão e Eva cometemos inúmeros erros e buscamos nos esquivar deles.

A culpa é sempre a do outrem

Se perguntarmos ao tio Google iremos ter como resposta inúmeros exemplos de pessoas que cometeram erros e não souberam reconhecê-los, mas preferimos tomar como referência inicial um trecho de um dos seriados de maior sucesso da televisão. Estamos falando do seriado Chaves, cujos personagens fazem parte de nossa infância e vida. A seguir transcrevemos parte do episódio intitulado O velho do saco (parte I).

A mãe do Kiko, dona Florinda, o proíbe de brincar na rua

Kiko –“Anda Chaves, diz que sim, que te custa sair um pouquinho para brincar na rua? Anda diz que sim... sim?”.

Chaves – “Como você é teimoso Kiko. Já esqueceu que a sua mãe te proibiu de você sair para brincar na rua, esqueceu?”.

Kiko – “Mas agora a minha mãe não está em casa”.

Chaves – “Não importa, os bons meninos devem obedecer as suas mães mesmo que elas não estejam.”;

Chiquinha entra na conversa – “Mas às vezes esquecem o que elas disseram”.

Chaves – “Mas eu tô lembrando ele”.

Kiko – “Por que você é intrometido”.

Chiquinha – “É”.

Chaves – “E você é uma besta, porque tem mãe e desperdiça desobedecendo ela [...] Eu se tivesse uma mãe, eu obedecia ela em tudo, tudo, tudo”.

Kiko – “Por isso eu digo que tenho que obedecer, mas escuta Chaves: minha mãe me disse de manhã que eu não podia brincar na rua, mas agora à tarde ela não disse nada”.

Chaves – “Bom isso sim. Viu só como é bonito ter a consciência tranquila?”

Kiko –
“Vamos, então vamos brincar lá na rua... an !!!”

Kiko tem uma surpresa ao ver sua mãe e, ao ser repreendido, culpa seus amigos.

Dona Florinda – “Jamais pensei que você fosse capaz de fazer isso, tesouro”.

Kiko – “Mas mamãe, é que eles ficaram insistindo tanto”.

Chiquinha – “Não é verdade...”.

Consegue compreender o significado do trecho transcrito acima? É um pouco longo, mas necessário para o entendimento do presente artigo. O personagem Kiko cometeu dois graves erros neste episódio: primeiro, deu à ordem de sua mãe uma nova interpretação; segundo, atribuiu aos seus amigos Chaves e Chiquinha seu erro. É verdade que há uma meia-culpa em sua resposta, mas o objetivo principal era atribuir aos seus amigos Chaves e Chiquinha um erro que ele mesmo havia cometido – o de desobedecer a uma ordem de sua mãe. Cometemos erros semelhantes inúmeras vezes em nossa vida, nas mais diversas situações. Há sempre uma orientação a ser reinterpretada, a ser distorcida de acordo com nossa vontade de provar novas coisas. Reinterpretamos ordens de acordo com nosso desejo de consumir o que nos é proibido.

Ao errar procuramos um culpado, seja ele nosso amigo, vizinho, companheiro, líder espiritual ou qualquer outra pessoa para a qual possamos transferir nosso erro. Dificilmente uma pessoa pega em prática ilícita reconhecerá sua culpa, ou mesmo reconhecendo é levada a delatar (entregar) seus comparssas e ter sua pena reduzida. É sempre o vizinho o culpado pelo lixo que cai em nossa calçada, e nunca nós que permitimos que nosso cachorrinho faça caca na calçada do vizinho. Alguém reconhecerá que errou? O mesmo acontece em diversos outros ambientes, como no trabalho, na universidade, no condomínio, na igreja, na associação. A culpa por uma luz deixada acesa em um setor é sempre a do outro, nunca nossa. A culpa por não progredirmos no ministério é sempre a do pastor, e não nossa. Há empenho na obra?

Quase sempre buscamos nos esquivar de responsabilidades por erros cometidos. É óbvio que um erro não pode ser interpretado apenas como um ato, uma participação direta em algum delito. Também erramos ao sermos coniventes (participes) com erros cometidos por outras pessoas. Ao saber que nosso irmão cometeu um pecado e não o orientamos a conversar com o pastor, pecamos por omissão. Entende? Erramos de diversas formas e em diferentes situações, e o caminho para progredirmos na vida é confessarmos nossos erros e orientarmos outros a confessarem. Não leve para casa um erro que poderá prejudicar seu companheiro de trabalho. Procure seu superior e confesse que você não prestou atenção e acabou quebrando a máquina. Além de uma atitude honrosa, é um dever de todo cristão que professa sua fé no Evangelho.

Adão e Eva transferiram suas responsabilidades, seus erros

Conhecermos de cor e salteado a história do pecado original. Assim como a mãe do Kiko, que amava seu filho e demonstrou preocupação com sua segurança, o proibindo de brincar na rua pelos inúmeros riscos existentes, Deus ama sua criação e estabeleceu limites a serem respeitados. “[...] De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal dela não comerás, porque no dia em que dela comeres certamente morrerás” (Gênesis 2.16a-17). Temos neste texto de Gênesis a primeira orientação divina, assim como a primeira advertência sobre as possíveis consequências do pecado, do transgredir um mandamento divino. Deus é cuidadoso no sentido de mostrar qual caminho se deve trilhar, apesar de não interferir na capacidade humana de escolha. Temos liberdade para servir a Deus com consciência.

Apesar de conhecer os riscos do ato de tomar do fruto proibido, Adão cedeu ao pecado. A responsabilidade de Adão era maior do que a de Eva, porque foi ele o primeiro a ouvir o mandamento divino com relação ao fruto proibido. Adão foi orientado diretamente por Deus, enquanto Eva foi orientada por seu marido. Há uma diferença de papeis, apesar de a mulher não ser em nada inferior ao homem; pelo contrário, a mulher é coigual ao homem nas inúmeras responsabilidades que envolvem o relacionamento conjugal e a devida consagração a Deus. Ao mesmo tempo não devemos demonizar o sexo feminino pelo o fato de Eva ter sido a primeira a comer do fruto proibido, e consequentemente ter convencido Adão a também comer. Não coloquemos sobre a mulher mais um jugo além dos vários que ela carrega todos os dias.

Eva errou, assim como Adão também errou. Ponto. Na vida conjugal também cometemos inúmeros erros, e muitas vezes culpamos nosso cônjuge por algum fracasso. Quando há ausência de diálogo, de releitura dos manuais que nos orientam como desenvolver um lar feliz e próspero, o relacionamento entra em um processo de degeneração. Havia diálogo entre o primeiro casal? É provável que houvesse, mas não conhecemos os detalhes. Mas e com relação ao pecado original? De quem foi à culpa? De ambos, é claro. Sabemos que Adão e Eva esquivaram-se de reconhecer seus erros. A primeira atitude – de se esconder ao ouvir a voz de Deus – demonstra comprometimento. A segunda atitude do casal foi a de apontar o outro como responsável.

Eva culpou a serpente. Adão culpou sua mulher. Ninguém reconheceu que errou. A atitude de Eva foi seguida por inúmeras outras pessoas ao longo da História. Desde os tempos primitivos o homem associa seu fracasso à interferência do maligno. De fato o diabo luta contra a criação de Deus, mas nem tudo que acontece em nossas vidas é culpa do diabo. Se fracassamos no casamento, se perdemos uma oportunidade de emprego, se não conseguimos nos estabilizar financeiramente é porque não persistimos naquilo que queremos. Culpar o inimigo por nosso fracasso é uma forma de reconhecer que não temos capacidade para mudarmos de vida. O mesmo acontece quando pecamos, quando não conseguimos resistir à tentação. A primeira reação é culpar o tinhoso. Não transfira para o inimigo sua responsabilidade, sua culpa por ter cedido ao pecado, à tentação.

Adão cometeu um triplo erro: desobedeceu a Deus, demonstrou não ter maturidade, e foi ingrato. Deus confiou a Adão a administração do Éden. Ele deveria cuidar de cada detalhe da segurança e da manutenção do jardim. Era uma grande honra e uma oportunidade de manter-se ocupado em uma atividade. Lembrando que “mente vazia é oficina do diabo”. Adão poderia comer livremente de todas as árvores frutiferas do jardim, exceto da árvore da ciência do conhecimento do bem e do mal. Mas fica aqui uma dúvida: se Deus não queria que o homem comesse do fruto proibido, por que colocou a árvore justamente no meio do jardim, ou seja, ao alcance do homem? Deus tinha como objetivo conhecer os limites de sua criação, do quanto seria capaz de resistir. Adão não passou no teste e arrastou consigo toda a humanidade ao buraco do pecado.

A serpente foi astuta no sentido de que conseguiu convencer o homem dos possíveis benefícios de ser como Deus, conhecendo o bem e o mal. No clássico “Alice no País das Maravilhas” (Corrol, Londres, 1865), Alice é convidada a entrar na toca do coelho e conhecer um novo mundo. Ela poderia assim realizar seus sonhos de liberdade. Adão era livre e mesmo assim cedeu ao pecado, não conseguiu dizer não à reinterpretação de que comer do fruto proibido lhe daria conhecimento e grande poder. Questionado por Deus, responsabilizou sua mulher por ter transgredido o mandamento. Uma pessoa imatura é alguém que não reconhece seus erros, que sempre culpa outras pessoas por suas falhas. É o marido que culpa a esposa pelo fracasso do casamento. É a mãe que culpa o pai pelo filho não ter limites. Ninguém reconhece seus próprios erros. Adão não reconheceu e ainda por cima foi ingrato ao culpar sua esposa, sua adjuntora. Não seja como Adão e Eva: reconheça seus erros e assim terá paz de espírito, felicidade e prosperidade. Confesse.