por Johnny Bernardo
Nada acontece por acaso em nossas vidas. Há, por trás de todos os eventos que presenciamos diariamente, um motivo, um aprendizado. A vida é, em si, um aprendizado contínuo. No artigo anterior (número V da série) discutimos sobre a importância de reconhecermos nossos erros como forma de superação. Fundamentamos nossa discussão com base no trecho de Gênesis 3.12-13. Tanto Adão quanto Eva procuraram se esquivar dos seus erros. Consequência: cada um - e também a serpente - foram de alguma forma punidos por seus erros. Todo erro é seguido por uma consequência. Não como uma forma de punição maldosa, desumana, mas como uma forma de aprendizado, de evolução. Como veremos, a justiça divina se diferencia em muito da humana.
Somos punidos por nossos erros
"Eu tenho 36 anos e sou mais uma estatística. Sou um jovem negro de periferia, que as primeiras coisas que viu quando saiu de casa foram as drogas, o crime e o assassinato. Mas lá onde eu morava também tinham pessoas que viam isso e foram pelo caminho certo. Eu sempre quis ser bandido. Estranho, né? Não. A gente é o que a gente quer ser. Eu sou o que eu via nas ruas."
Incluímos o breve testemunho acima para fundamentarmos algo que é discutido nas Escrituras: de que todo erro tem uma causa e um efeito. Wellington Romano é apenas um dos vários dos casos de pessoas que foram encarceradas devido terem cometido algum crime. Apesar de seus erros, Romano conseguiu superar as dificuldades comuns a todos os detentos, formando-se em um curso de cabeleireiro. Aprendeu e passou a compartilhar dentro e fora do Presídio Regional de Ibireté suas experiências e a conduzir outros a refletirem. Seu público-alvo são adolescentes de escolas públicas de Ibireté (MG), mas também tem atingido adultos. Ao todo, já falou para mais de 1000 pessoas.
Romano cometeu inúmeros crimes e foi condenado a vários anos de detenção. A vida na prisão não foi nada fácil, mas conseguiu superar as limitações e evoluir para algo melhor. É, como diz em suas palestras, parte de uma estatística que inclui mais de 700 mil detentos - metade dos quais ainda sequer foram julgados. Nem todos os detentos hoje encarcerados conseguem deixar a vida do crime, e não encontram apoio do governo para serem reintroduzidos na sociedade como cidadãos que contribuem para um país melhor. Na verdade, sua própria condição social os conduzem indiretamente para o crime, embora a pobreza não seja a única responsável pela criminalidade.
Em todo caso, a lei prevê graus de punição para quem ultrapassa os limites legais e cometem crimes. Não que o nosso código penal - que é do final da década de 1940 - seja um modelo a ser copiado por outros países. Não. Precisa passar por mudanças, por adaptações. Há alguns casos de presídios que oferecem oportunidades de trabalho, de ressocialização de presos, como é o caso do presídio de Ibireté. Outros presídios, como é o caso do de Pedrinhas, no Maranhão, tratam os detentos como seres de segunda categoria, como porcos a serem depositados em celas superlotadas. Nós, e o mundo, sabemos das consequências deste modelo de "ressocialização": constantes rebeliões e mortes.
É claro que quem cometeu crimes precisa passar por um processo de ressocialização, e em casos de crimes hediondos (contra a vida humana) devem passar por um período de afastamento do convívio social. A lei deve ser seguida, independente de quem for pego cometendo um crime que requeira encarceramento. Mas nem todos deveriam ser punidos com detenção, com encarceramento em regime fechado ou semiaberto. Um exemplo é a de uma jovem que furtou um pote de manteiga e foi condenada a cumprir quatro anos de prisão em regime semiaberto. Em sua defesa, a jovem falou ao juiz que "não aguentou ver seu filho passar fome, não ter uma manteiga para passar em seu pão".
A Bíblia também prevê punições para quem comete pecados
A principal lição que devemos tirar de casos como o do ex-detento Wellington Romano é que somos punidos por nossos erros e que devemos passar por um processo de disciplina como forma de superação e aprendizado. A jovem que furtou uma manteiga no mercado também é um exemplo, embora sua punição tenha sido muito rigorosa quando sabemos que políticos permanecem impunes mesmo tendo saqueado milhões dos cofres públicos. Neste caso também não deveriam ser encarcerados, mas tomados todos os bens e valores acrescidos ao seu patrimônio, banidos da política e terem de prestar serviços públicos gratuitos por alguns anos. Seria uma medida correta e justa.
A Bíblia também prevê punições para quem comete delitos, que não respeita os limites estabelecidos por Deus. A diferença entre a justiça divina e a humana é que Deus não pune de forma desrespeitosa e com o objetivo de fazer alguém sofrer. Deus é justo, e ao estabelecer alguma condenação tem como objetivo disciplinar e fazer com que a pessoa alvo da correção não cometa mais pecados, não desrespeite seus mandamentos. No Antigo Testamento há casos extremos, de punição com morte para quem não acatasse determinada lei da Torá (Pentateuco), mas com Jesus temos uma nova ressignificação da Lei. Jesus deu o exemplo ao perdoar uma mulher adúltera e outros pecadores.
A Bíblia deve ser interpretada a partir das diferentes dispensações (fases) que a caracterizam. Adão e Eva conheceram a primeira das sete dispensações: a da Inocência. Foram criados puros, sem mácula, e tinham um relacionamento pessoal com Deus. Conversavam todos os dias com o Senhor, tal como filhos com seus pais. Havia, acima de tudo, um pacto de obediência com o criador. Mas Adão e Eva não foram programados tal como robôs que executam a vontade de seus proprietários. Tinham consciência, vontade e livre-arbítrio. Deveriam servir a Deus com consciência, e não induzidos por uma programação divina que os obrigasse a serem obedientes. Uma relação deve ser pautada por amor e respeito mútuo. Adão e Eva deveriam servir de exemplo as demais gerações, mas erraram.
Deus é um pai bondoso que se preocupa com seus filhos. Como todo pai que ama sua prole, e adverte quanto aos perigos do mundo e das possíveis consequências da desobediência, Deus advertiu Adão e Eva. "De toda árvore comerá livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás" (Gênesis 3.16-17). Em Deuteronômio 28 temos algo que estudiosos em Antigo Testamento entendem como um paralelo com a admoestação divina ao primeiro casal. Os primeiros 14 versículos falam sobre as bençãos da obediência, do ouvir atentamente a voz do Senhor Deus, mas a partir do versículo 15 temos as consequências da desobediência. Assim, Deus é generoso no sentido de mostrar os dois caminhos.
Adão e Eva eram mais do que conscientes no sentido de conheceram os limites impostos por Deus. Deveriam resistir a tentação de tomar do fruto proibido, mesmo sendo agradável aos olhos. Ao mesmo tempo, a presença da árvore proibida no meio do Jardim do Éden foi uma forma encontrada por Deus para conhecer os limites da sua criação. Ao pecar, Adão e Eva foram reprovados e banidos do jardim, embora continuassem a viver na região conhecida como Éden. Tanto é que Deus colocou querubins ao oriente do jardim do Éden para impedir que o homem voltasse ao jardim e tomasse também do fruto da árvore da vida (Gênesis 3.24). Deus não expulsou Adão e Eva do Éden, mas do jardim. Queria mantê-los por perto, embora impedindo que o casal tivesse acesso à arvore da vida.
O mesmo aconteceu com Moisés, que devido ter cometido um único deslize foi impedido de entrar na terra prometida. Chegou aos limites, contemplou a promessa, mas não tomou posse da benção prometida aos patriarcas. Permaneceu nas cercanias, protegido por Deus. Mesmo em sua morte Moisés continuou sobre o domínio divino, e no episódio da transfiguração de Jesus apareceu ao lado de Elias (Mateus 17. 3). É assim que Deus trabalha, é a sua forma de punir e corrigir seus filhos. Adão e Eva certamente permaneceram vários dias observando o jardim do Éden, lembrando dos bons momentos que viveram, em que compartilharam de sua beleza. Foram expulsos por terem desobedecido ao Senhor, mas não foram esquecidos. Deu continuou cuidando de sua criação.
Temos que tirar algo de proveitoso do episódio. Assim como Adão e Eva, cometemos inúmeros deslizes, e com mais frequência. Não somos santos. Pelo contrário: o pecado habita em nós graças a um único deslize do primeiro casal. Somos pecadores por natureza. Apesar de sermos concebidos em pecado (Salmos 51.5), temos Cristo como nosso advogado junto ao Pai (I João 2.1). Quando pecamos temos a quem recorrer. Secularmente também erramos frequentemente. Ao aceitar algo que não nos pertence, ou sermos coniventes com quem comete delitos dentro e fora da Igreja, cometemos erros cujos consequências são previstas nas Escrituras e nas leis de nosso país. As cadeias estão cheias de pastores, filhos de pastores e irmãos que cometeram crimes. Assim, ter uma credencial de obreiro ou de membro de uma igreja não é garantia de que não seremos punidos por eventuais delitos. Reflita.