A Bíblia nos Ensina a Viver VII


por Johnny Bernardo

Neste sétimo artigo da série A Bíblia nos Ensina a Viver conversaremos sobre um tema que envolve pessoas de todos os países e culturas: que é o mal causado pelo excesso de trabalho. No terceiro artigo da série falamos sobre a importância do trabalho, porém de uma perspectiva geral, e não apenas focando o trabalho enquanto atividade produtiva, ou seja, queríamos chamar a atenção do leitor para a necessidade de ocuparmos nossa mente em algo, de modo a não desviarmos nossa atenção do Evangelho. O trabalho é importante, mas desde que não traga prejuízos à saúde e à convivência com familiares e consigo mesmo. É o que veremos neste texto.

Quando o trabalho torna-se uma prática torturante

O excesso de trabalho traz prejuízos físicos e emocionais, como alertam especialistas em saúde do trabalho. É no Oriente que observamos os maiores índices de problemas relacionados a alta carga de trabalho. Um caso recente foi o suicídio de uma jovem japonesa devido ao estresse causado pelo excesso de trabalho. A seguir conheceremos alguns detalhes desta triste história.

"As autoridades japonesas anunciaram, esta quarta-feira, ter decidido processar na justiça a agência de publicidade Dentsu e um dos seus dirigentes após o suicídio, no ano passado, de uma funcionária, cuja morte foi atribuída ao excesso de trabalho. “Temos que acabar com as excessivas longas horas de trabalho”, declarou o porta-voz do governo, numa conferência de imprensa.

O Ministério do Trabalho encaminhou o caso para o Ministério Público após considerar que a empresa violou a legislação laboral e que, por conseguinte, tem responsabilidade legal na morte da jovem, indicaram fontes governamentais à emissora pública NHK.

As autoridades japonesas consideraram como um caso de “karoshi”, morte relacionada com o excesso de trabalho, o que sucedeu com Matsuri Takahashi, de 24 anos.

A jovem funcionária da Dentsu, empresa líder do setor publicitário no país asiático, que pôs termo à sua vida há um ano, chegou a trabalhar até 105 horas extra por mês, apesar dos registos da Dentsu mostrarem um cômputo dentro do limite legal." (observador.pt/2016/12/2016).

Estamos diante de uma triste realidade pela qual milhares de japoneses vivenciam diariamente, alguns dos quais chegam ao extremo de cometer suicídio ou simplesmente morrem por exaustão. A jovem Matsuri Takahashi é apenas mais uma das inúmeras vítimas de um sistema capitalista selvagem, que suga até a última gota do sangue dos trabalhadores. O desespero de Takahashi é exemplificado em uma de suas várias mensagens publicadas nas redes sociais. “Quero morrer”, escreveu ela semanas antes de pular de seu apartamento na noite de Natal de 2015. Enquanto famílias ao redor do mundo comemoravam o Natal, Takahashi pulava para a morte. Dor, revolta, tristeza, injustiça, foram algumas das palavras usadas para descrever a morte de uma jovem que chegava a fazer cerca de 105 horas extras por mês na gigante Dentsu.

Há uma cultura de horas extras no Japão conhecida como “Karoshi”. O termo ganhou ainda mais significado e repúdio com a morte de Takahashi, que tinha apenas 24 anos e há apenas sete meses trabalhava na agência. Mesmo após sua morte e renúncia do presidente da Dentsu, funcionários continuam fazendo mais de 80 horas extras por mês. É um problema antigo, mas que começou a se acentuar após o desfecho da Segunda Guerra Mundial, quando o Japão teve de se recuperar após ter sido bombardeado pelos Estados Unidos. Dos escombros surgiu um novo país, ainda mais fanático pelo trabalho. São milhares de famílias prejudicadas pelo Karoshi desde então. É uma questão complexa e que até mesmo o governo tem tentado resolver, mas que encontra na tradição uma grande barreira cultural. Vide ainda o governo indiano e as castas.

O atual capitalismo japonês é o resultado de uma aderência histórica ao modelo inglês de produção, resultado dos desdobramentos da Revolução Industrial. A Inglaterra foi o primeiro país a abandonar o sistema medieval de produção, em que trabalhadores tinham completo domínio sobre a atividade produtiva. Sob o novo sistema de trabalho, não apenas homens mas também mulheres e crianças dedicavam mais de 15 horas de trabalho por dia, e em condições insalubres e com baixa remuneração. É daí que nasce o termo “proletário”. Da Revolução Industrial surgiram inúmeros outros problemas, como o esvaziamento do campo e a superlotação de grandes cidades, como Londres e Paris. Além do trabalho diário exaustivo, os trabalhadores viviam em condições precárias de vida, em pequenos casebres e ao lado de lixões.

Históricamente associado aos pobres, o termo trabalho tem sua origem no vocábulo latino tripalliun, que significa “instrumento de tortura”, e por séculos vem sendo associado à ideia de atividade penosa e torturante. E não é este o significado de trabalho para muitas pessoas? Exceto para quem tem o domínio do capital, do sistema produtivo. Mesmo na Inglaterra dos tempos da Revolução Industrial, enquanto trabalhadores passavam semanas consecutivas confinados dentro de empresas insalubres e quentes, os donos dos meios de produção frequentavam parques públicos, teatros, restaurantes e casas de verão. Aos pobres restava o trabalho, mal remunerado e em condições desumanas. Não tinham tempo e mesmo nas poucas horas vagas, energia para relaxar em um passeio pela vizinhança, em praças ou terrenos baldios.

Do suor do teu rosto comerás o teu pão

Sabendo que a origem do termo trabalho deriva do latim tripalliun, e que é compreendido como uma atividade penosa e torturante, é possível associar o termo ao texto de Gênesis 3.17-19? Na passagem, Deus profere a Adão quais seriam as consequências de sua desobediência. Até então responsável pelo Éden, cabia a Adão lavrar e cuidar do jardim. Eram tarefas simples. No Éden havia tudo que o homem precisava para viver confortavelmente, diferente da onda de consumismo que tomaria conta do mundo alguns milênios depois. Adão e Eva alimentavam-se quando queriam e não tinham nenhuma preocupação com o futuro. Nenhuma. O pecado mudou os rumos do primeiro casal e de toda a humanidade que deles surgiria. Nada seria como antes. Caberia ao homem criar seu próprio sustento, plantar e cultivar a terra para se alimentar.

Adão sentiria na pele as consequências do pecado. O trabalho nasce aí como uma atividade torturante, que requeria do homem muita dedicação. Logo surgiu a primeira cidade – Enoque – e com ela todo um sistema criado em consequência da necessidade de sobrevivência. Ferreiros, fabricantes de tendas, pastores, músicos etc., foram algumas das profissões que surgiram nos primórdios da humanidade. Da noite para o dia surgiram novos povoados nos arredores de rios, e que com um tempo tornaram-se cidades. Divisão de tarefas e de castas foram algumas das consequências do estabelecimento do homem em núcleos urbanos. Não havia moeda, mas um sistema de troca de produtos. Com o aumento da população aumentou também o trabalho. Amaldiçoada pelo pecado, a terra custava a dar frutos. O homem teria de adaptar-se a situação.

Assim, os primeiros anos da história da humanidade foram caracterizados por constantes deslocamentos em busca de terras cultiváveis, de condições climáticas favoráveis ao cultivo de plantações e ao pastoreio. Mas também foi um período de aprendizado. O homem não reconheceu os benefícios da obediência, rebelou-se contra Deus e por isso teve de enfrentar duras jornadas de trabalho para manter-se razoavelmente alimentado. E com o contínuo afastamento do Éden nasceu a ganância, o desejo de domínio e subjugação dos povos. Ninrode encabeçou a primeira tentativa de unificação das diferentes tribos com o objetivo de dominá-las. Resultado: Deus dispersou os povos em tantos idiomas quanto eram as diferentes etnias. Mesmo assim o homem continuou em busca de uma autossuficiência egocêntrica e destruidora.

Vide as nações primitivas. Egípcios. Babilônicos. Assírios. Medo-persas. Gregos. Romanos. Foram grandes impérios que dominaram vastas extensões do Velho Mundo. Minorias foram perseguidas e escravizadas. A nação de Israel foi uma das que tiveram de trabalhar para Faraó em troca de comida e moradia. Eram escravos. Grandes cidades e construções do Egito Antigo foram construídos com o trabalho de homens, mulheres e crianças israelitas. De uma atividade inicialmente criada com o objetivo de sustentar uma família ou tribo, o trabalho passou a se tornar uma atividade lucrativa para uma pequena minoria de senhores que dominavam o capital. O trabalho tornou-se cada vez mais uma atividade torturante, de responsabilidade das minorias. O continente Americano surgiu do trabalho exaustivo de índios e negros escravizados.

Milênios depois o trabalho continua sendo uma atividade desvalorizada e que traz benefícios a uma pequena minoria da sociedade. O pecado de Adão continua a castigar povos inteiros. Milhões de pessoas amontoadas em cidades disputam postos de trabalho, muitos dos quais com salários que apenas lhes permite apenas viverem como escravos assalariados. Para sobreviver, trabalhadores têm de trabalhar semanas inteiras, sem folga e com jornadas diárias que podem chegar a 12 horas de trabalho. Depois do surgimento de doenças devastadoras, como a AIDS, o mundo agora tem de lidar com um problema ainda maior, tido por especialistas como o mal do século: a depressão. Takahashi foi uma das milhares de vítimas de um sistema que leva o homem a isolar-se cada vez mais. “O comer do suor do teu rosto” ganhou um novo significado.

Jesus veio justamente para estabelecer uma nova perspectiva para mulheres, crianças, pobres, estrangeiros e demais minorias que à época eram descriminados pela sociedade dominante. Sua mensagem continua atual, chamando povos inteiros para uma nova compreensão da vida. Por que continuar sustentando um sistema que nos leva cada vez mais para o buraco, que nos aprisiona em fábricas e escritórios enquanto uma minoria desfruta dos lucros do trabalho gerado? Cabe a cada um de nós buscar uma nova alternativa, uma visão progressista de libertação. Foi o que Jesus fez ao chamar as minorias para o centro do debate, ao tirar as mulheres de uma posição em que os ortodoxos as oprimiam e as aprisionavam em suas casas. Jesus rompeu com este sistema machista e desumano e continua a demonstrar sua perspectiva.

Cabe ainda chamar a atenção do leitor para a importância do convívio familiar e da prática de atividades esportivas e de lazer. Jesus deu o exemplo ao participar de uma festa de casamento. Se no Japão há uma tradição de horas extras que levam cada vez mais pessoas a depressão, em muitos outros lugares há um verdadeiro “vício em trabalho”. Muitos idosos aposentam e continuam trabalhando, e nem sempre porque precisam de um complemento salarial. Não conseguem se libertar da rotina, da máquina. Por que não dar lugar a outros trabalhadores e passar a dedicar-se a outras atividades? Há inúmeros lugares no Brasil para conhecer e explorar. Outros que estão em atividade também não conseguem se desligar do trabalho e acabam por trazer prejuízos ao convívio familiar. Fiquemos atentos a este problema que afeta várias pessoas.